sábado, 6 de agosto de 2011

são poemas simbolistas o que deixo
entre linhas preenchidas de vazio
paralelas como as margens de um rio
e singelas como as faces de um seixo.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Eu sei que a noite é triste e compreendo
Que a escuridão te enerve, se estás só
Envolta nos teus medos, remoendo
A dor que é recente e não tem pó.

Eu sei que os conselhos são inúteis
Que tudo o que disser será em vão
Mas há-de haver em ti compreensão
Para estes versos toscos, quase fúteis.

Em mim tudo o que existe é coração
É força de saber que há mais além
Daquilo que aos meus olhos se mantém
Indizível na verdade da razão.

Em mim tudo o que existe é poesia
É vida a fervilhar numa tensão
Que se expande alegremente e contagia
Como a fonte que inspira uma canção.

Eu sei que a noite é triste e compreendo
Que a escuridão te enerve, se estás só
Mas há-de haver um fim para esse nó
Na aurora boreal que vem nascendo.

sábado, 13 de novembro de 2010

timidez

é tão fácil dizer nada
quando se fala de amor.

eu que calo e que consinto
palavras que outros dizem
vejo-te sorrir e minto
a mim mesmo (o que é pior).

no silêncio em que sofro
imagino o que diria
se te visse a sós um dia
entre brumas de magia.

certamente estenderia
uma mão num cumprimento
e escoar-se-ia o tempo
sem dizer o que queria.

é tão fácil dizer nada
quando se fala de amor.

mas lerias epopeias
no sangue das minhas veias
numa implosão de rubor.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

deixa a roupa na entrada
desta porta que te abro
e vem nua, sem reparo
pela senda imaculada.

não repares no vazio
das paredes despojadas
nem nas folhas destroçadas
onde em letras te recrio

entra, e dir-te-ei porque me rio
porque choro, porque envolvo
porque te abraço como um polvo
e me aconchego sem ter frio.

entra, e faz-te minha sendo tua
essa vontade de ser gente
e marca em mim a transigente
alegoria da lua.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

de barro te moldei e dei-te vida
guardei em ti a luz e o calor
e do teu peito agreste fiz guarida
dum espírito fulgente e do amor.

deixei no teu olhar a mais sentida
volúpia de quimeras impensadas
e nos teus braços fortes retesadas
as cordas duma abrupta despedida.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

alentejo

a minha pátria tem cor
tem sons, cheiros, sabores
tem fragrâncias de licores
e sol que sabe a suor.

a minha pátria tem vida
tem sangue por nós vertido
e gente que traz consigo
o valor da despedida.
quando eu era grande esquecia o amor
perdia-me em formulas, destilava saber
e subia aos palcos sem me estremecer
sem voz embargada, sem qualquer rubor.

quando eu era grande conhecia o mundo
enumerava reis e brincava às embaixadas
e sabia que o mar é imenso e profundo
e que as suas areias são praias douradas.

quando eu era grande desconhecia o tempo.
mas um dia tornei-me pequeno, e foi então
que escutando só a voz do coração

deixei escorrer o tempo pela fresta
que espia circunspecta a noite escura
e ardi, como um poeta, de loucura
sentindo na garganta tal secura
que amar é tudo aquilo que resta.