sábado, 15 de agosto de 2009

Um cigarro apagado
Uma lareira acesa
Um copo esvaziado
No tampo da mesa

Um disco que toca
Uma janela aberta
Alguém que sufoca
Na casa deserta

Lá fora o murmúrio
Das folhas ao vento
Será o augúrio
De um triste momento?

Suspenso da cama
Um laço letal
E apagada a chama
De quem foi mortal.
Eu não quero a calma, eu quero a fúria
De possuir-te nua sobre a cama
E atear em mim uma crua chama
Que arda num amplexo de luxúria.

Eu não quero lânguidas palavras
Como um beijo, sussurradas ao ouvido
Eu quero as tuas mãos das minhas escravas
O teu corpo, junto ao meu, enlouquecido.
Preciso do teu beijo, dum carinho
Do toque dos teus dedos no meu rosto
Dos lábios que tens tintos pelo vinho
Do teu perfume doce, do teu gosto.

Preciso de palavras, de conforto
De ter a tua mão entre os meus dedos
De revelar-te, enfim, os meus segredos
E de apagar em mim o ar de morto.
Deixa o velho porto a tua escuna
Num rasto de gaivotas pardacentas
E ruma para o sol que cobre a duna
De azuis e violáceos e magentas.

Eu fico à beira mar olhando a espuma
Pensando no navio que se ausenta
E sinto a tua fuga como a pluma
Cujo peso à terra firme me acorrenta.

Tu segues o caminho mais seguro
Aquele que te afasta da loucura
E só eu fico aqui, onde se apura
Um sentimento tórrido e obscuro.
Um riso furtivo
Um olhar que me amarra
Silêncios de vidro
E o meu peito dispara.

Nem beijos sofridos
Nem corpos de água
Nem nunca escondidos
Delíquios de frágua.

Apenas eu mesmo
Inseguro e imbele
Procurando a esmo
O sabor da tua pele.

Apenas um rio
Buliçoso e agreste
E em mim o frio
Do mortal cipreste.
De todos os amores foste o primeiro
Incendiário e louco, aterrador
Talvez, por isso mesmo, o verdadeiro
O único e sincero grande amor.

Amei mil outras vezes, sim, amei
Fiz juras e promessas que cumpri
Mas a primeira jura foi a ti
As outras foram cópias que inventei.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sorriste-me da mesa do café
enquanto eu aguardava a minha bica
a voz interior dizendo "fica"
crescendo como as ondas da maré.

De novo me sorriste do balcão
tirando uma moeda da carteira
sorrindo dessa pueril maneira
que sempre me arrebata o coração.

Sorriste-me, depois, já à saída
e eu voltei ali, a procurar-te
talvez acreditando em encontrar-te
eu, que nem sorri na despedida.